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Histórias da Quarentena

Histórias da Quarentena

Clivagem social

Elas têm mania de acordar mais cedo nas férias. Basta não ter mais horário ou trabalho e elas começam a madrugar, acordando antes do sol nascer. A mais nova pede leite e ainda acorda a mais velha, para desespero de pai e mãe.

Sem aula e com home office em época de isolamento social por causa do coronavírus, alimentamos a ilusão de que poderíamos dormir até um pouco mais tarde. Mas elas são espertas e seguem a analogia das férias. Cada vez mais cedo.

Outra manhã, ainda escura – ou seria madrugada? –, minha esposa, acordada de seus sonhos pelas meninas, foi resmungando até o quarto delas, dizendo que não tinha nada para fazer naquele dia e elas ainda acordam cedo, que tinham que dormir até tarde etc. Então minha filha de quatro anos perguntou:

– Quem acorda tarde é porque não tem nada para fazer?

Pode-se dizer que sim. Alguns objetarão, dizendo que se acordam tarde é porque tiveram muito o que fazer na noite anterior. Outros dirão que podem até acordar tarde, mas que são laboriosos e têm o dia atarefado. Outros, ainda, dirão que não é folga, e sim questão de saúde o repouso de pelo menos oito horas diárias, e por isso não é que eles acordem tarde, mas que dormem bem.

Mas eu fico com a pureza da resposta das crianças.

Quem acorda tarde é porque não tem nada o que fazer mesmo. E cá dentro há uma voz dizendo “vagabundos” a todos esses que acordam tarde, embora eu guarde esse insulto comigo e de maneira nenhuma pense em externar tal opinião.

Isso fica mais evidente em tempos de quarentena. Formou-se um abismo entre duas classes de pessoas: as com filhos pequenos e as sem filhos pequenos. Os memes se proliferaram, as piadas abundam nas redes, as queixas se avolumam nos grupos de pais. Tudo para retratar a polarização que existe na sociedade de hoje.

Estão falando de solidariedade e de ajuda ao próximo em meio a essa pandemia. Pois o que eu vejo é uma clivagem social extrema, onde dois grupos antagônicos talvez não possam conviver harmonicamente até a próxima semana de quarentena.

As pessoas sem filhos pequenos limpam a casa, fazem comida e trabalham de casa numa “exaustiva” rotina de tédio e confinamento.

As pessoas com filhos pequenos fazem tudo isso e ainda têm de cuidar, alimentar, proteger, entreter, brincar, brigar, educar, limpar, vestir, pentear, divertir, afastar e acalmar crianças pequenas. E isso tudo sem poder sair de casa.

Por isso quando as pessoas com filhos veem pessoas sem filhos meditando, fazendo exercícios na sala, falando de novas séries a cada dia, lendo livros, adiantando projetos, e ainda reclamando da quarentena, é possível que se acenda nelas uma fúria assassina. Para elas, confinamento sem filhos é Big Brother, enquanto o confinamento com filhos é um experimento psicológico para definir o limiar entre a loucura e a sanidade.

Eu não chego a tanto, só tendo mesmo a concordar com a opinião da minha filha: quem acorda tarde é porque não tem nada o que fazer da vida, e são tudo uns desocupados, e folgados, e descansados.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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