21.5 C
Brasília
sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Histórias da Quarentena

Date:

Share post:

Histórias da Quarentena

Clivagem social

Elas têm mania de acordar mais cedo nas férias. Basta não ter mais horário ou trabalho e elas começam a madrugar, acordando antes do sol nascer. A mais nova pede leite e ainda acorda a mais velha, para desespero de pai e mãe.

Sem aula e com home office em época de isolamento social por causa do coronavírus, alimentamos a ilusão de que poderíamos dormir até um pouco mais tarde. Mas elas são espertas e seguem a analogia das férias. Cada vez mais cedo.

Outra manhã, ainda escura – ou seria madrugada? –, minha esposa, acordada de seus sonhos pelas meninas, foi resmungando até o quarto delas, dizendo que não tinha nada para fazer naquele dia e elas ainda acordam cedo, que tinham que dormir até tarde etc. Então minha filha de quatro anos perguntou:

– Quem acorda tarde é porque não tem nada para fazer?

Pode-se dizer que sim. Alguns objetarão, dizendo que se acordam tarde é porque tiveram muito o que fazer na noite anterior. Outros dirão que podem até acordar tarde, mas que são laboriosos e têm o dia atarefado. Outros, ainda, dirão que não é folga, e sim questão de saúde o repouso de pelo menos oito horas diárias, e por isso não é que eles acordem tarde, mas que dormem bem.

Mas eu fico com a pureza da resposta das crianças.

Quem acorda tarde é porque não tem nada o que fazer mesmo. E cá dentro há uma voz dizendo “vagabundos” a todos esses que acordam tarde, embora eu guarde esse insulto comigo e de maneira nenhuma pense em externar tal opinião.

Isso fica mais evidente em tempos de quarentena. Formou-se um abismo entre duas classes de pessoas: as com filhos pequenos e as sem filhos pequenos. Os memes se proliferaram, as piadas abundam nas redes, as queixas se avolumam nos grupos de pais. Tudo para retratar a polarização que existe na sociedade de hoje.

Estão falando de solidariedade e de ajuda ao próximo em meio a essa pandemia. Pois o que eu vejo é uma clivagem social extrema, onde dois grupos antagônicos talvez não possam conviver harmonicamente até a próxima semana de quarentena.

As pessoas sem filhos pequenos limpam a casa, fazem comida e trabalham de casa numa “exaustiva” rotina de tédio e confinamento.

As pessoas com filhos pequenos fazem tudo isso e ainda têm de cuidar, alimentar, proteger, entreter, brincar, brigar, educar, limpar, vestir, pentear, divertir, afastar e acalmar crianças pequenas. E isso tudo sem poder sair de casa.

Por isso quando as pessoas com filhos veem pessoas sem filhos meditando, fazendo exercícios na sala, falando de novas séries a cada dia, lendo livros, adiantando projetos, e ainda reclamando da quarentena, é possível que se acenda nelas uma fúria assassina. Para elas, confinamento sem filhos é Big Brother, enquanto o confinamento com filhos é um experimento psicológico para definir o limiar entre a loucura e a sanidade.

Eu não chego a tanto, só tendo mesmo a concordar com a opinião da minha filha: quem acorda tarde é porque não tem nada o que fazer da vida, e são tudo uns desocupados, e folgados, e descansados.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

publicidade

Related articles

Em evento do Lide Brasília, governador Ibaneis Rocha e secretário Ney Ferraz anunciam investimentos até R$ 6 bilhões*

Após fechar o ano de 2023 com superávit de R$ 2,6 bilhões nas contas públicas, o Governo do...

Ressaca de Carnaval com Adriana Samartini na Clube.Co

No dia 24 de fevereiro, sábado, o complexo esportivo localizado no Setor de Clubes Sul, promove um animado...

Atividades de verão: conheça cuidados necessários para a saúde da musculatura e articulações

O corpo exige atenção na prática de atividades físicas e esportivas para evitar desconfortos e lesões O verão é...

Gaza: Médicos Sem Fronteiras condena ataque israelense que matou duas familiares de um profissional da organização

Ataque a abrigo de MSF em Al-Mawasi, Khan Younis, também deixou seis pessoas feridas Médicos Sem Fronteiras (MSF) condena...