Aos 51 anos, o ex-deputado distrital e servidor público tenta retornar à Câmara Legislativa defendendo um mandato centrado em escolas públicas, agricultura, reestruturação administrativa e leis de efeito concreto na vida cotidiana do Distrito Federal
Reginaldo Rocha Sardinha Goes fala de política como quem fala de rotina. Para ele, a campanha não começa no calendário eleitoral nem termina no dia da votação. “Faço política comprando pão, viajando, em casa, o tempo inteiro”, explica.
Aos 51 anos, o ex-deputado distrital e servidor público tenta voltar à Câmara Legislativa do Distrito Federal em condições mais difíceis do que nas disputas anteriores. Depois de deixar o PL por não se identificar “nem com a extrema direita, nem com a extrema esquerda”, passou a concorrer pelo Mobiliza, antigo PMN : uma legenda menor, com menos estrutura, pouco tempo de televisão e escassez de recursos.
A mudança de partido, segundo ele, reduziu o conforto material da campanha, mas não alterou aquilo que considera essencial em sua vida pública: presença constante, contato com a população e resposta direta a problemas concretos. Sardinha defende que o mandato precisa deixar marca visível, seja em escolas reformadas, seja em leis que mudem o cotidiano de quem depende do Estado.
Nascido em Anápolis(GO), mas criado em Brasília desde os 5 anos, ele construiu toda a vida na capital. Passou em concursos para as polícias civis de Goiás e do Distrito Federal e escolheu permanecer no DF, onde seguiu carreira e formou base política.
A origem familiar, segundo relata, também ajuda a explicar essa inclinação: cita a avó, primeira vereadora de Porto Franco, no Maranhão, e o bisavô, que foi deputado estadual. A política, no entanto, aparece em sua fala menos como herança simbólica e mais como exercício prático.
No balanço que faz do mandato exercido entre 2019 e 2022, Sardinha destaca sobretudo os investimentos em 162 escolas públicas, com quase R$ 40 milhões destinados a reformas, salas de aula, cantinas, banheiros e quadras esportivas.
Também chama atenção para leis de impacto cotidiano, como a Lei nº 6.301/2019, que garante prioridade na entrega de medicamentos em farmácias públicas a mulheres vítimas de violência doméstica, e a Lei nº 6.647/2020, que proibiu no Distrito Federal fogos de artifício com estampido. Ambas são citadas por ele como exemplos de um mandato voltado menos ao discurso abstrato e mais ao efeito concreto da legislação sobre a vida comum.
Se voltar à CLDF, afirma querer concentrar esforços em duas frentes que considera decisivas: educação e agricultura. Na entrevista à 61brasília, também faz críticas duras ao esvaziamento das administrações regionais, ao avanço das invasões fundiárias e à perda de capacidade operacional do Estado em áreas que, a seu ver, deveriam ser tratadas como prioridade.
Você começa a entrevista dizendo que faz política o tempo inteiro. O que isso quer dizer na prática?
Quer dizer que minha campanha não é feita só em 45 dias. Eu faço política comprando pão, em casa, viajando, em qualquer lugar. Sempre foi assim. Então, quando chega a campanha, ela já vem sendo construída ao longo da vida.
Nesta eleição, você está em um partido menor e citou as dificuldades de estrutura. O que mudou em relação às campanhas anteriores?
Mudou muito. Eu vim do PL, que tinha mais tempo de televisão e mais estrutura. Hoje estou no Mobiliza, antigo PMN, que continua praticamente sem televisão e sem dinheiro. Então a campanha fica mais difícil e, no meu caso, está sendo feita muito com recurso próprio.
Além disso, você mencionou uma dificuldade pessoal importante neste momento.
Sim. Minha mãe está doente desde junho, internando e saindo do hospital. Então eu divido meu tempo entre campanha, família, afazeres pessoais e o cuidado com ela. É um período muito desgastante.
Em que momento da sua vida a política deixa de ser só convivência e passa a ser destino?
Acho que isso vem da família e da formação. Minha avó foi a primeira vereadora de Porto Franco, no Maranhão; meu bisavô foi deputado estadual. E eu sempre tive essa inclinação. Depois, na Polícia Civil e na vida pública, isso foi se consolidando.
Você também contou que passou em dois concursos e decidiu ficar em Brasília. Como essa escolha te formou?
Passei para delegado em Goiás e para agente aqui no DF. Escolhi Brasília porque minha vida toda foi aqui. Vim para cá com 5 anos de idade e foi aqui que construí minha trajetória.
Seu primeiro mandato começa em 2019. Quando olha para ele hoje, qual legado considera mais importante?
Sem dúvida, a educação. Nós ajudamos 162 escolas públicas, com cerca de R$ 40 milhões em reformas, salas de aula, cantinas, banheiros, estrutura, quadras. Eu sou fruto de escola pública e isso, para mim, é um legado que fica.
E, no campo das leis, o que você destacaria?
Tem leis que mudam a vida concreta das pessoas. Uma delas garante prioridade na entrega de medicamentos em farmácias públicas para mulheres vítimas de violência doméstica. Outra proibiu fogos com estampido no DF. Não proíbe fogos; proibiu o estampido, pensando em autistas, acamados, doentes e animais.
Você citou um caso concreto que te marcou em relação à lei dos medicamentos.
Por que ele ficou tão vivo para você?
Porque, anos depois, uma mulher me disse que o que mais a ajudava era não precisar enfrentar fila para pegar o medicamento. Aí você vê que vale a pena ser político. Às vezes uma lei parece pequena, mas muda a vida de alguém.
Você fez uma crítica forte ao modelo atual das administrações regionais. Onde está o principal problema?
As administrações perderam poder e viraram, muitas vezes, uma espécie de despachante de luxo. Não têm equipamento, não têm comando efetivo, não executam como deveriam. Brasília precisa de uma reestruturação administrativa muito forte.
Essa crítica se liga também ao problema das invasões fundiárias?
Totalmente. As invasões acontecem por leniência do Estado. Falta fiscalização, falta decisão, falta presença. E, quando você deixa acontecer, depois o próprio Estado tem que absorver as consequências.
Por isso a agricultura apareceu com tanta força no seu discurso?
Exatamente. A agricultura no interior está morrendo. A Secretaria de Agricultura funciona com uma fração muito pequena do efetivo, os produtores estão deixando de produzir e a área rural está perdendo espaço. Se não cuidar disso, falta alimento e falta proteção do território.
Se você voltar à Câmara, onde quer concentrar o mandato?
Quero continuar ajudando as escolas, porque sou apaixonado por educação, e quero fazer um foco muito centrado na agricultura. O DF precisa olhar com seriedade para essas duas áreas.
No fim das contas, por que vale a pena voltar?
Porque eu quero continuar fazendo o bem para essa população. Tenho minha família aqui, minhas filhas aqui, quero ter meus netos, meus bisnetos e morrer aqui. Então eu quero continuar trabalhando por Brasília.






