Ex-desembargador do TJDFT e candidato do Novo ao Senado pelo Distrito Federal, Coelho entra na disputa de 2026 afirmando que o Senado falhou em conter abusos de ministros do Supremo Tribunal Federal
A candidatura de Sebastião Coelho da Silva ao Senado pelo Distrito Federal nasce de uma convicção central dele: a de que o Senado se omite diante do que ele considera excessos cometidos por ministros do Supremo Tribunal Federal.
Aos 71 anos, aposentado desde 2022 do cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, ele tenta converter a longa trajetória no Judiciário em credencial para uma campanha ancorada no confronto institucional.
Nascido em Santana de Ipanema, em Alagoas, em 15 de maio de 1955, bacharel em Direito pela FMU, em São Paulo, Sebastião Coelho ingressou na magistratura do DF em 1991. Ao longo de mais de três décadas, passou por varas criminais, pela Justiça Eleitoral e por cargos associativos e de direção no sistema de Justiça, até chegar ao desembargo, em 2013. Na entrevista à 61brasília, apresenta esse percurso como prova de que conhece “por dentro” o funcionamento do Judiciário e, por isso, estaria preparado para enfrentar, no Senado, aquilo que chama de desequilíbrio entre os Poderes.
Para ele, o Senado precisa reassumir o papel de freios e contrapesos previsto na Constituição e voltar a exercer controle sobre ministros do Supremo em casos que considere graves. O tema aparece não apenas como uma bandeira entre outras, mas como o próprio eixo de sua entrada na disputa eleitoral.
Ao mesmo tempo, Sebastião Coelho procura ampliar o alcance da candidatura para além do embate com o STF. Fala em defesa das prerrogativas da advocacia, critica o que vê como fragilização da segurança jurídica e associa esse debate a uma agenda mais ampla para o Distrito Federal. Cita, entre as prioridades, segurança pública, reforço da rede de saúde, compensações ao DF pelo atendimento à população do Entorno e soluções de mobilidade para quem depende diariamente do deslocamento entre Brasília e as cidades vizinhas de Goiás.
Na disputa local, o ex-desembargador também tenta se firmar como voz própria no campo da direita. Critica acomodações partidárias, questiona práticas que associa à política tradicional e insiste em se apresentar como alguém com independência para sustentar posições duras dentro e fora das instituições. Seu argumento é que, mais do que experiência, falta coragem ao Senado atual para exercer plenamente suas atribuições.
Por que o senhor decidiu disputar o Senado pelo Novo aqui em Brasília?
A candidatura nasceu de uma necessidade de enfrentamento com o Supremo Tribunal Federal. Isso não é desrespeitar nem desautorizar a instituição STF, mas enfrentar ministros que evidentemente estão abusando do poder. E o maior símbolo disso, para mim, é o ministro Alexandre de Moraes, que há muito tempo vem abusando do poder. O Senado tem uma grande importância nisso, porque ele tem o dever de fazer o que nós chamamos de freios e contrapesos. Neste momento, infelizmente, o Senado não está cumprindo esse papel.
Que papel seria esse?
O papel de fazer com que o Supremo cumpra a Constituição. E, para isso, qualquer candidato ao Senado tem que assumir o compromisso de impeachment de ministro Moraes do STF. E não é por qualquer coisa, mas por uma coisa grave. O Senado hoje, infelizmente, se demitiu do seu dever. Ele disse: “não, isso não é comigo”. E é com ele, sim.
O senhor se apresenta como alguém preparado para esse enfrentamento. Por quê?
Porque eu me sinto preparado juridicamente e tenho coragem para fazer. Às vezes a pessoa é preparada, e eu considero que no atual Senado há várias pessoas preparadas, mas não têm coragem para o enfrentamento. Ou porque não têm essa essência, ou porque estão comprometidas, ou até envolvidas em coisas erradas com ministros do Supremo. Eu não tenho esse problema.
O senhor diz que conhece o Judiciário por dentro. O que isso significa na prática?
Significa que ninguém vai me dizer como é o Poder Judiciário, porque eu conheço. Fui juiz e desembargador por 30 anos, 11 meses e 5 dias. Fui vice-presidente e corregedor do Tribunal Eleitoral, presidi turma, presidi câmara, fui do conselho especial. Então eu conheço por dentro. E posso garantir à população brasileira que o Poder Judiciário não é essa anarquia que se viu em determinados episódios recentes. Aquilo foi um episódio deprimente, um episódio de circo com a nossa Justiça.
O senhor fala também de liberdade de imprensa e prerrogativas da advocacia. Por que esses temas entraram na sua plataforma?
Porque nós estamos vivendo um momento de cerceamento da liberdade de imprensa e também um momento em que as prerrogativas dos advogados não são respeitadas. E quando você não respeita a prerrogativa do advogado, você está violando o próprio exercício da ampla defesa. Só há ampla defesa se o advogado tiver a possibilidade de fazer o enfrentamento correto. Eu quero ser, além de outras coisas, um defensor da advocacia para que nós tenhamos segurança jurídica.
Além da reforma do Judiciário, que outros temas o senhor considera centrais para o DF?
Segurança pública, saúde e mobilidade. Um país sem segurança jurídica e sem segurança pública não tem muito futuro. Os investidores fogem. E nós temos também de cuidar da vida concreta das pessoas: a tranquilidade de mandar o filho para a escola, de ir a um show, de circular com segurança. Em Brasília, há ainda a questão da mobilidade, porque uma grande parte dos trabalhadores mora no Entorno e trabalha aqui. Tem que haver convergência entre o governo de Brasília e o governo de Goiás para dar a essas pessoas melhores condições de deslocamento.
E na saúde, qual é sua visão?
A saúde do DF cuida de quase 5 milhões de pessoas, embora a população daqui seja menor, porque atende não só o Entorno, mas gente do Brasil inteiro. Então teria de haver também uma compensação maior no Fundo Constitucional, especialmente no que diz respeito à saúde. Não se trata de excluir as pessoas do Entorno, mas de dar condições para que os profissionais da saúde trabalhem e para que não falte o básico no hospital público, inclusive remédio.
O senhor também tem falado em empreendedorismo. Como esse tema entra na candidatura?
Eu acredito na força do trabalho. Comecei a trabalhar muito cedo, ainda menino, na roça. Sou uma pessoa simples, que saiu de lá e venceu na vida. Então eu valorizo o trabalho, valorizo quem empreende, quem produz, quem quer crescer. Um país com insegurança jurídica e insegurança pública afasta investimento, e isso atinge diretamente a vida de quem quer trabalhar e prosperar.
Como o senhor se posiciona dentro da disputa da direita no Distrito Federal?
Eu tenho respeito pela legitimidade das outras candidaturas, mas a minha candidatura está posta desde muito antes e tem uma razão clara de existir. O que me desagradou muito foi a insistência para que eu desistisse dela. Não tem desistência. Minha candidatura foi consolidada dentro do partido e eu estou muito confiante de que, quando as urnas forem abertas, muita gente terá surpresa.
O que diferencia sua candidatura das demais?
Eu sou uma voz que incomoda porque venho de dentro do Judiciário. Conheço por dentro, conheço os limites, conheço os desvios e sei o que precisa ser enfrentado. Então eu diria que o que me diferencia é isso: experiência, independência e coragem para fazer alguma coisa pelo país, sem descuidar também dos outros temas que interessam diretamente ao Distrito Federal.
Por fim: por que o eleitor do DF deveria votar no senhor para o Senado?
Porque eu me sinto preparado para defender o Brasil e o Distrito Federal. Preparado juridicamente e com coragem para fazer o enfrentamento que precisa ser feito. Quero ser uma voz no Senado para ajudar a recolocar o país no caminho da normalidade institucional e também para cuidar de temas concretos, como saúde, segurança pública, mobilidade e segurança jurídica.






